Falta de limites

Algumas pessoas se relacionam invadindo a vida dos outros sem nenhuma no√ß√£o da privacidade alheia. Elas trazem este modelo da sua fam√≠lia original, quando eram investigadas sistematicamente. “Onde voc√™ foi? Com quem estava? Por que se atrasou?” – inspecionadas, com total falta de liberdade. As rela√ß√Ķes sem limites s√£o desrespeitosas e baseadas na desconfian√ßa – controle total, invas√£o do celular, do facebook, e assim, n√£o d√° para dizer que exista amor. Conviver com algu√©m sem limites √© complicado e exige que voc√™ se posicione o tempo todo, caso contr√°rio, √© certo que ser√° dominado ou at√© massacrado. E a melhor forma de se proteger √© dizer em alto e bom tom: “Pare! N√£o quero e nem permito que me invada. E se n√£o parar, n√£o ficarei mais ao seu lado!” – e, respeitando a si mesmo, cumpra a promessa.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

Dificuldade em estabelecer vínculos afetivos

Podemos dizer que as pessoas que n√£o estabelecem v√≠nculos afetivos t√™m uma dificuldade originada na forma√ß√£o de sua personalidade. Elas possuem mecanismos para se defender do envolvimento que lhes parece muito amea√ßador. Em algum momentos de suas vidas deixaram de confiar nos outros. S√£o pessoas que se isolam, n√£o t√™m paci√™ncia para conviver com as diferen√ßas, muitas vezes t√™m vida sexual ativa, sem aprofundar-se nas rela√ß√Ķes. Falta-lhes paci√™ncia, toler√Ęncia ou mesmo humildade para conviver com intimidade. Estas pessoas est√£o fixadas em uma posi√ß√£o narcisista, e isto significa que vivem na ilus√£o de se bastar, de n√£o precisar dos outros. Muitas vezes s√£o hipersens√≠veis e t√™m medo de se machucar. Noutras, falta sensibilidade para a conviv√™ncia √≠ntima. Muitas nem chegam a se apaixonar, tamanha a defesa; outras, apaixonam-se com bastante facilidade, mas n√£o conseguem ir adiante com a rela√ß√£o. Acionam mecanismos de defesa para escapar da intimidade. Inventam desculpas, racionalizam, acusam os outros, ficam chatas e assim por diante. Os relacionamentos na vida adulta somente vem a confirmar as quest√Ķes bem ou mal resolvidas que tivemos na vida infantil. Os relacionamentos atuais costumam acontecer como extens√£o das rela√ß√Ķes que tivemos com a fam√≠lia original. Uma crian√ßa que recebe amor, introjeta este sentimento, e na vida adulta, sente que tem muito a oferecer. Na rela√ß√£o com nossos familiares adquirimos h√°bitos comportamentais mais ou menos saud√°veis. Ao analisarmos a hist√≥ria de algu√©m que n√£o consegue se vincular afetivamente, encontraremos motivos que o fizeram se retrair. Na primeira inf√Ęncia, at√© os 4 ou 6 meses de idade, n√£o temos condi√ß√Ķes de enxergar a m√£e como um ser completo, com suas qualidades e defeitos. Temos a fantasia de que ela possui tudo o que precisamos. Com o passar do tempo, nos damos conta que a mesma m√£e que nos alimenta e cuida, tamb√©m nos falta. Devido √† imensa depend√™ncia e vulnerabilidade, desenvolvemos uma ansiedade paran√≥ica, fantasiando a perda da m√£e. A partir do segundo semestre de vida j√° temos condi√ß√Ķes de perceber que a m√£e n√£o √© perfeita e, dependendo da hist√≥ria, passamos a aceit√°-la da forma que ela √©. Pessoas que n√£o conseguem se vincular s√£o perfeccionistas, est√£o fixadas em uma posi√ß√£o infantil. N√£o entendem que ningu√©m √© perfeito, nem mesmo os relacionamentos o s√£o. A timidez, a dificuldade de se comunicar, de se expressar, o excesso de preocupa√ß√£o consigo mesmo, a incapacidade de ver o outro do jeito que ele √©, tudo isso pode levar ao isolamento, mas n√£o √© s√≥ isso. Existem pessoas bem articuladas que tamb√©m n√£o se vinculam. Estas t√™m outros motivos. Por exemplo, n√£o conseguem juntar numa s√≥ pessoa as caracter√≠sticas que procuram. Buscam por um ideal que n√£o existe. √Č poss√≠vel tratar a anorexia emocional por meio de uma boa an√°lise, compreendendo a pr√≥pria hist√≥ria e os fatores que o levaram a se defender tanto do amor. √Č poss√≠vel mudar este padr√£o, experimentar as rela√ß√Ķes de outra forma, diferente daquela que aprendeu em sua forma√ß√£o. Confian√ßa e entrega s√£o fundamentais. Conviver e resolver com os conflitos, uma boa dose de generosidade, e principalmente o autoconhecimento, tudo isso conta. Boa parte das pessoas que me procuram apresentam esta quest√£o. Os tempos atuais nos proporcionam muitas possibilidades de fuga, como √© o caso do v√≠cio em internet, drogas, √°lcool, trabalho e outras compuls√Ķes que nos ocupam e desviam do contato com a realidade. Tudo isso nos afasta da intimidade com a gente mesmo e com os outros.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

Timidez e problemas de comunicação

O t√≠mido sempre tem a impress√£o de que est√° sendo julgado pelos outros. Por v√°rios motivos relacionados com a forma√ß√£o de sua personalidade, com sua hist√≥ria, tem a auto-estima muito baixa. N√£o percebe o que √© real, vivendo em um mundo ilus√≥rio. Fecha-se para as rela√ß√Ķes. N√£o participa. Se isola. E muitas vezes apresenta-se de forma arrogante ou mesmo desajeitada para os outros. Tem medo de se expressar, de dizer o que pensa e sente. Est√° muito reprimido. Enquanto n√£o passar por uma boa an√°lise, compreendendo os motivos que os fizeram se fechar, sofrer√° com este comportamento, inclusive com grande dificuldade para iniciar ou mesmo desenvolver boas rela√ß√Ķes.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

Vaidade

Na vaidade, ao inv√©s de investir em seu pr√≥prio crescimento pessoal, voc√™ coloca a energia na est√©tica, no status. A vaidade n√£o o leva a nada a n√£o ser a uma depend√™ncia cada vez maior da aprova√ß√£o dos outros. Assim, a refer√™ncia √© sempre exterior, ficando ref√©m do julgamento alheio. Voc√™ fica mais preocupado com a imagem do que com a ess√™ncia. A vaidade tem muitas caras: beleza, poder, intelecto, espiritual. O problema √© que assim, voc√™ n√£o consegue estabelecer boas rela√ß√Ķes, que dependem muito mais da conex√£o com o que √© mais profundo e verdadeiro. Vaidoso, voc√™ n√£o vai resolver o que √© importante em sua vida, em suas rela√ß√Ķes. Uma imagem n√£o pode amar outra imagem. O amor s√≥ acontece de alma para alma. E √© com esta que voc√™ precisa se encontrar.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

Exigência e perfeccionismo

O perfeccionismo √© uma ilus√£o que inviabiliza as rela√ß√Ķes. Somente aqueles que n√£o conhecem a realidade humana √© que buscam a perfei√ß√£o de si mesmos, do outros e dos relacionamentos. √Č uma busca em v√£o. E tamb√©m uma esp√©cie de escravid√£o. Vive-se muito mal sendo perfeccionista. A exig√™ncia em excesso se torna uma tortura. Voc√™ luta contra o fato de que todos somos imperfeitos. Eu sou imperfeito, voc√™ √© imperfeito, as rela√ß√Ķes s√£o imperfeitas. Estamos todos em um processo de aprendizagem e crescimento. Ao entender isso, voc√™ se liberta. Para de cobrar tanto de si mesmo e dos outros e estabelece rela√ß√Ķes apoiadas na aceita√ß√£o, no amor.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

Falta de compromisso

Quanto vale a sua palavra? O que passa em sua cabe√ßa quando voc√™ promete algo? Voc√™ costuma cumprir o que prometeu? Voc√™ chega na hora em que marcou? Ou deixa as pessoas esperando? Outra coisa, quando voc√™ diz que est√° a fim de algu√©m, at√© que ponto isso √© uma verdade? Enfim, estas s√£o quest√Ķes que permeiam muitas rela√ß√Ķes. Existem muitas pessoas que n√£o se comprometem nem com pequenas nem com grandes decis√Ķes. Est√£o sempre em cima do muro. S√£o escorregadias. Por algum motivo t√™m medo de perder a liberdade, de se comprometer. Mas perdem muito com isso, pois, sem compromisso, n√£o h√° confian√ßa, n√£o h√° entrega. Sem compromisso voc√™ n√£o aprofunda e fica o tempo todo pairando na superf√≠cie das rela√ß√Ķes.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

Falta de amor

O problema n√ļmero um que vivemos √© a falta de amor. As pessoas est√£o se relacionando como b√°rbaros, com intoler√Ęncia, viol√™ncia, autoritarismo, extremo ego√≠smo, sem perceber que somos todos um. Falta aten√ß√£o, cuidado, gentileza. E tudo come√ßa por voc√™ mesmo, pelo amor pr√≥prio, no bom sentido, na forma que cuida de si: do corpo, das emo√ß√Ķes, da mente, do sono, das escolhas que faz para sua vida. Se voc√™ n√£o cuida de si, fica devendo, fica irritado, e desconta nos outros. Por isso, respeitar-se e cuidar-se com amor √© o primeiro passo. Depois vem a consci√™ncia de que n√£o estamos s√≥s, que existe um constante fluxo de trocas, de dar e receber, que acontece entre n√≥s, tudo e todos. Estando conscientes disso, prestamos aten√ß√£o para que este fluxo seja de boa qualidade. Ao inv√©s de nos relacionarmos de qualquer maneira, colocamos boas inten√ß√Ķes em tudo que fazemos e dizemos, em todos os momentos. Precisamos urgentemente sair da ignor√Ęncia e adotar o amor como o estado soberano. N√£o h√° outro caminho para a humanidade.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

O ciumento precisa ser tratado

O ci√ļme pode ser provocado pela atitude do companheiro, mas nem sempre √© assim.
Uma pessoa que não consegue viver dentro dos limites de um relacionamento, requisita, de forma inconsciente, que o parceiro faça o papel de cerceador dos seus desejos rebeldes. Assim, transferem para o outro a chata tarefa de monitorá-la. Quem é espaçoso precisa de alguém que corte suas asas. O ciumento, que já tem uma tendência ao controle, entra neste jogo, passando a atuar de forma neurótica: desconfia, investiga, cobra. Noutras vezes, porém, o outro não está praticando nenhum deslize, mas o ciumento, por já possuir um caráter neurótico, imagina que irá perder seu amor, pois alguém irá roubá-lo. Neste caso, ele encontra- se em estado de delírio, imaginando rivais que na verdade não existem. De uma forma ou de outra o ciumento está sofrendo e fazendo o outro sofrer. Em alguns casos, ele se torna agressivo, violento e até perigoso. Por isso, precisa ser tratado. Precisa entender o tamanho da sua carência, da sua insegurança e da necessidade de controlar. Vale a pena passar por uma boa análise, pois sozinho é bem difícil mudar.
Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

Como lidar com o ci√ļme manifesto?

O ciumento fica mais saliente ao pensar que pode perder seu parceiro . Na verdade, este √© um sentimento que envolve sempre uma terceira pessoa, quer seja real ou imagin√°ria, que ameace a estabilidade do casal. Muitas vezes, trata-se de um del√≠rio, pois nada ocorreu de fato que justificasse o ataque de ci√ļme. Se voc√™ tem um parceiro muito ciumento, n√£o se deixe dominar por ele. Toda vez que voc√™ sentir que algu√©m est√° sendo destrutivo, imediatamente afaste-se dele. N√£o h√° nenhuma necessidade de conden√°-lo. Simplesmente diga: “Neste momento n√£o temos que ficar juntos”. Nem perca seu tempo e n√£o tenha expectativas de que ele vai mudar e tudo vai ficar bem. Simplesmente deixe-o sozinho com sua neurose. Ali√°s, o ideal √© que ele procure uma boa terapia! Voc√™ n√£o pode fazer nada por isso.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos

DA PAIXÃO À COMPAIXÃO

Entrevista de Sergio Savian* para o Preparado pra Valer

1- Como o jovem casal pode trabalhar a ideia de ter um relacionamento sem dependência amorosa?
Em um relacionamento amoroso sempre haver√° algum tipo de depend√™ncia, que d√° liga √† pr√≥pria rela√ß√£o. Quanto mais independente voc√™ for, menos precisa do relacionamento, quanto mais dependente, mais precisa. √Č um paradoxo: um bom relacionamento se d√° quando cada um dos c√īnjuges desenvolve um trabalho de autoconhecimento, desenvolvendo cada vez mais independ√™ncia. Por outro lado, se este processo for radical, n√£o precisar√° mais da rela√ß√£o…¬†¬†

2- √Č preciso maturidade para os dois conseguirem isso?
Sim, é preciso muita maturidade, que vem do autoconhecimento. Quanto mais se conhece, aumenta a necessidade de se realizar na vida, e para isso, é preciso desenvolver algumas virtudes como a disciplina, o discernimento, o contato com a alma. Também faz parte desta maturidade adquirir a liberdade de ir e vir, liberdade esta que é estendida ao parceiro. Isso não é para qualquer um. 

3- O ci√ļme atrapalha quando o casal busca ser independente amorosamente?
O ci√ļme acontece quando voc√™ tem a ilus√£o de possuir o outro, sentindo-se amea√ßado quando acredita que algu√©m pode roub√°-lo de voc√™. Isso faz parte do nosso ego, que n√£o √© o lado mais s√°bio. O ego √© uma inven√ß√£o de n√≥s mesmos. Somente quando paramos de nos inventar, paramos de inventar as outras pessoas. Mas a√≠ a paix√£o desaparece, e quando a paix√£o desaparece, surge a compaix√£o. Na compaix√£o voc√™ estabelece outro tipo de contato, com respeito total a si mesmo e ao outro.

*Sergio Savian é psicanalista especializado em relacionamento. Saiba mais sobre seu trabalho no site www.sergiosavian.com.br